segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Genial

"Vamos baixar?

Os álbuns gostam do que as suas donas chama de pensamentos. O que, no seu doce entender, se caracteriza por um "pensamento bonito" expresso por "palavras bonitas". Não digo que fosse uma beleza, mas que era uma boniteza, era. Aqui vai um exemplo:

"As montanhas tem a névoa, o lago tem o cisne, a alma tem o amor."

E antes que pufes de rir na minha cara, leitor, vou logo prevenindo que este "pensamento" é de Victor Hugo. Que queres? Pesas que só nós, os da planície, fazemos coisas dessas? Os himalaias também têm seus altos e baixos.

Principalmente baixos... Para triste consolo nosso e puro êxtase dos álbuns.

Mário Quintana."

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Ortografia por Mário Quintana


Costumava-se distinguir entre creação e criação. Exemplo: a creação de um poema, e a criação de galinhas. Era limpo e nítido. Nada de confusões. Mas agora que tudo é um, como diziam os clássicos, ficou irremediavelmente perdido o que escrevi, um dia:

“Deus creou o mundo e o diabo criou o mundo”. E agora? Para explicar tudo isso em mais palavras o que seria um verdadeiro crime – imagem os circunlóquios que eu teria de fazer... Não faço.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Rita Alvez




Naquele mercantil que todo mundo conhece. Naquela hora que todo mundo sabe. Duas amigas que todo mundo têm se encontram.

- Amiga!

- Carminha! Como bocê tá?

- Tô ótima, amiga. E tu mulhé?

- Melhor impossíbel. Bocê tá...

- Ei tu tá sabendo?

- Do que?

- Da Ritinha.

- Que Ritinha?

- Do curso de francês.

- Rita Albez?

- É!

- Que tem ela?

- Morreu!

- Num diga...

- Digo sim, morreeeu a Ritinha.

- Mulhé, mas a Ritinha... Como foi?

- Atravessando a rua.

- Atropelada!

- Não. Ataque Cardíaco.

- Ai, mas ela tinha um coração tão forte.

- Não mulhé, Cardíaco, a gangue que tá aterrorizando o Bem Fica.

- Ai mulhé, num pode. Ela era tão boa. Um exemplo de mulhé, tão pra frente, né? Cheia de ideias.

- É, amiga. Eu num conhecia ela não, mas admirava, de true. Ela me dava força com aquela atitude dela.

- Berdade.

- Eu nunca fiz as coisas dela, né? Mas era bom saber que tinha gente como ela. Ai, amiga, fico tão triste, ela era um exemplo, muito marcante pra mim, vou levar pra vida toda.

- Pois é, mulhé. Eu só falaba com ela assim, nos corredores, mas ela era especial, a gente sentia, né?

- É.

- Ei, olha!

- O que?

- A Tereza.

- Ai, tenho abuso.

- E eu?

- Ela é muito chata, toda atrapalhada, só fala besteira.

- Ai vamo mandar à egípcia.

Essas duas amigas, que todo mundo têm, mandaram à egípcia e foram embora.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Rimas de uma tarde desocupada.



Uma vez eu vi
uma garota cagando na estrada.
Peguntei,
o que ela fazia ali
e ela me disse sorrindo que cagava.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Um Breve Relato




Um Breve Relato

Personagens:
Homem
Mulher


CENA ÚNICA

Homem e Mulher no centro do palco. Sentados. Olhando para frente. Luz fraca.

HOMEM: Deveríamos matar todas as baratas.

MULHER: Por que?

HOMEM: Deveríamos.

Silêncio. Homem passa os olhos pelo chão, como a observar as baratas andando pela casa.

HOMEM: Onde está o veneno para baratas.

MULHER: Temos muitas baratas.

HOMEM: Por isso matá-las.

MULHER: Melhor deixá-las escondidas.

HOMEM: Não suporto mais viver com elas por aí.

MULHER: Mas você nem vê-las.

HOMEM: Acabei de ver uma passar por baixo de suas pernas.

MULHER: Só uma. (Pausa) Não faz mal nenhum.

Silêncio.

MULHER: Entenda, ver uma baratinha aqui e acolá não faz mal nenhum. Mate-as se precisar. Mas quando mexer com elas e começarem a correr pela casa como loucas... bem... quando souber de todas... talvez enlouqueça.

HOMEM: Enlouqueço com elas escondidas. De tocaia. (Pausa) As imagino andando por aí, à noite, quando fecho os olhos. Andam pelo meu corpo, mastigando. As imagino tentando entrar pelo meu ouvido, pelas minhas narinas, para... para se alimentarem de meu cérebro. É isso que querem. São famintas. (Pausa) Não consigo fechar os olhos. Não consigo dormir a noite.

Silêncio.

MULHER: Tome seu remédio.

Homem encara a Mulher. Levanta-se e sai à procura do veneno para baratas.

MULHER: Não vai encontrar.

Homem continua procurando.

MULHER: Eu bebi o último frasco.

Homem para. Aproxima-se lentamente da mulher e fica de frente para ela. Silêncio. Tira um frasco do bolso, senta-se e coloca a mulher no colo. Então inicia o processo de tirar o veneno de sua mulher, como feito com as cobras. Homem assovia a Marcha Nupcial durante o processo. Termina e coloca um borrifador fechando o frasco. Então começa a dedetizar cada canto da casa, palco. Quando termina volta a sua cadeira com um largo sorriso.

MULHER: Satisfeito?

HOMEM: ...

MULHER: Satisfeito?!

HOMEM: ...

MULHER: SATISFEITO?!

Silêncio. Homem começa a passar os olhos pelo chão. Primeiro devagar. Depois mais rápido. Até está em um ritmo frenético para todos os lados.

MULHER: E agora? O que fará?

Homem tira seu sapato e começa a matar baratas pelo chão. Com força. Várias pancadas. Desesperadas. Ele para. Acompanha uma barata subir na Mulher. À mata. Blackout.

FIM